Blog · Sementes do Brasil
A maior lavoura do Brasil é o pasto
São 165,6 milhões de hectares de capim, três vezes soja e cana somadas. E o Brasil é o país que mais exporta semente de forrageira tropical.
6 de novembro de 2026 · 5 min de leitura · por Enrico S. Ambrosio

Quando se fala em lavoura no Brasil, a conversa vai para soja, milho e cana. Só que o maior uso da terra na agropecuária brasileira é o capim. Em 2025 o MapBiomas mapeou 165,6 milhões de hectares de pastagem, 60,6% de toda a área ocupada pela agropecuária.

Três vezes soja e cana
No mesmo mapeamento, a soja ocupava 44,2 milhões de hectares e a cana, 11,1 milhões. Somadas, dão 55,3 milhões, um terço da área de pasto. Na conta com a área territorial do IBGE, o pasto cobre cerca de 19% do Brasil, quase um quinto do território.
E nem todo esse pasto vai bem. Em 2024, 21,6% das pastagens (33,4 milhões de hectares) tinham baixo vigor, com pouca forragem e muito solo exposto ao longo do ano. O MapBiomas trata essa condição como degradação severa. Em dezembro de 2023 o governo federal criou um programa nacional para converter pasto degradado em sistemas produtivos que capturem mais carbono. Recuperar pasto virou política pública.


O maior exportador de semente de capim
Formar ou reformar pasto pede semente de capim, que na braquiária é a espigueta: o grão vestido pelas glumas, que é o que vai para o saco. Até a década de 1970 o Brasil importava essa semente. Hoje é o maior exportador mundial de sementes de forrageiras tropicais, com destino principal na América Latina, na África e na Ásia. A produção média de 2013 a 2017 foi de 286 mil toneladas de sementes brutas por ano (Embrapa, Boletim CiCarne 35), 75% de braquiária (Urochloa) e 24% de Megathyrsus maximus, o antigo Panicum maximum.
Semente de capim é um fruto vestido
O que se compra como semente de capim é mais que uma semente. Nas gramíneas, a unidade que cai da planta costuma ser uma cariopse vestida: o fruto de uma semente só, ainda envolto por glumas, lema e pálea. Na braquiária, essa unidade é a espigueta. Por fora, uma espigueta cheia e uma vazia se parecem muito. A cheia tem cariopse, a vazia não.

No Megathyrsus, as espiguetas ficam numa panícula aberta e não amadurecem todas ao mesmo tempo. Na hora da colheita, parte já caiu e parte ainda está verde, e o lote costuma chegar com muita espigueta vazia ou mal formada.


Dormente não é morta
Semente de forrageira recém-colhida costuma estar dormente: está viva, mas não germina. No armazém, a dormência cai. Em Urochloa humidicola, Abrantes, Machado-Neto e Custódio viram que guardar as espiguetas a 20 °C com um pouco mais de umidade fez a dormência cair mais cedo ao longo do ano, sem produto químico. Num trabalho de 2025, com espiguetas de três capins guardadas por até 44 meses, as mais pesadas, bem formadas, se conservaram melhor no ar seco.
Para quem lê o teste, a consequência é direta. Uma espigueta que não germinou pode estar dormente, e a germinação sozinha não diz se ela estava viva. No fim do teste de germinação, o tetrazólio mostra quais das que não germinaram estavam vivas, porque cora o tecido vivo, dormente ou não. Ele mostra viabilidade, não dormência. O método para gramíneas forrageiras tropicais está no capítulo de Custódio e Aguiar no livro Vigor de sementes, da ABRATES.
Onde entra o SeedCounter
No perfil de forrageiras do SeedCounter, as classes do protocolo ficam à mão: cheia, vazia, dormente, morta. Você marca cada espigueta, o app conta e dá a proporção de cada classe, e a imagem fica guardada com o lote. Na retirada seguinte do armazém, dá para abrir a sessão e conferir a espigueta por trás de cada número.
O app não decide se uma espigueta que não germinou está dormente ou morta. Quem diz é o tetrazólio, ou o protocolo do seu laboratório. Veja o exemplo de forrageira e abra um lote seu no SeedCounter.
Para a bancada inteira: Armazenamento e viabilidade, com umidade, temperatura, dormência e tetrazólio.
Capa: pastagem com gado em João Ramalho (SP). Foto: Secretaria de Agricultura e Abastecimento, CC BY 2.0.
Fontes
- MapBiomas, Coleção 11 (12/08/2026). Área de pastagem, de soja e de cana em 2025. brasil.mapbiomas.org
- IBGE, Áreas Territoriais (2023), para a fração do território. ibge.gov.br
- MapBiomas, levantamento de pastagem e agricultura (10/12/2025). Pastagens com baixo vigor em 2024. brasil.mapbiomas.org
- Decreto nº 11.815, de 5 de dezembro de 2023, que cria o Programa Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. planalto.gov.br
- Landau, Simeão e Matos Neto (2020). Boletim CiCarne 35, Embrapa Gado de Corte. Exportação e produção de sementes de forrageiras. PDF
- Filgueiras (1986). O conceito de fruto em gramíneas. Pesquisa Agropecuária Brasileira. PDF
- Abrantes F.L., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2021). Ciência Rural 51(1), e20200526. doi:10.1590/0103-8478cr20200526
- Abrantes F.L., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2025). Brazilian Archives of Biology and Technology 68, e25241009. doi:10.1590/1678-4324-2025241009
- Custódio C.C., Aguiar R.P. (2020). Teste de tetrazólio em sementes de gramíneas forrageiras tropicais. Em Vigor de sementes: conceitos e testes, 2ª ed., cap. 15. ABRATES.


