Teoria · armazenamento
Guardar semente é adiar a germinação.
Um lote comercial espera de uma safra para a outra. Um banco de sementes guarda uma espécie por décadas. Nos dois casos a pergunta é a mesma: depois de guardada, a semente ainda germina? Esta página mostra o que decide a resposta e como se confere, com os trabalhos do GPEOrq e do GPSEM em orquídeas e forrageiras.
Entender · visual

01 · Por que guardar
Do lote da safra ao banco de sementes
Na produção, a semente colhida num ano vai para o campo no ano seguinte, e o lote precisa chegar lá germinando. Na conservação, o prazo é outro: o banco de sementes guarda a diversidade de uma espécie para quando ela for necessária, às vezes décadas depois.
Para orquídeas, o banco de sementes é o caminho mais simples e barato. Uma cápsula tem milhares de sementes, e um frasco pequeno guarda muita variabilidade em pouco espaço [1]. O GPEOrq mantém um banco de sementes de orquídeas e participa da rede OSSSU de bancos de sementes de orquídeas, com o Kew e o Jardim Botânico de Singapura.
Por muito tempo se disse que semente de orquídea dura pouco guardada. Os trabalhos do grupo mostram que depende da espécie e de como ela é guardada, e que muitas aguentam bem o banco de sementes convencional [6].

02 · Umidade e temperatura
Seca e fria, a semente dura mais
Duas coisas pesam mais no armazém: a água dentro da semente e a temperatura. A semente troca umidade com o ar em volta, então o ar do armazém e a embalagem entram na conta. A regra de bancada é secar antes de guardar e guardar no frio. A tabela mostra o que o grupo viu, ensaio por ensaio.
| Semente | Como foi guardada | O que se viu |
|---|---|---|
| Sete espécies de Cattleya | Secas, por nove meses, em temperatura ambiente, 5 °C, −18 °C e nitrogênio líquido | Germinaram bem nas quatro condições. Cattleya rupestris foi a mais resistente [4] |
| Oito espécies de Cattleya | Secas, a −18 °C, num banco de sementes convencional, por mais de uma década | Continuaram germinando [6] |
| Três espécies de Cattleya | Secas e guardadas por 270 dias, de 5 °C a nitrogênio líquido | A germinação quase não mudou na maioria das condições. A −20 °C algumas espécies perderam até 46%, e o nitrogênio líquido ficou como opção segura [5] |
| Três espécies de Urochloa | Espiguetas a 20 °C, em ar seco ou úmido, por até 44 meses | As espiguetas mais pesadas, bem formadas, se conservaram melhor no ar seco [8] |
A mesma condição não serve para todas as espécies, e por isso cada uma pede o seu teste. Uma semente bem formada e bem seca já entra no armazém com vantagem: o lote que sai bom da colheita é o que dura.
03 · Dormência
O armazém também muda a semente
Semente de forrageira recém-colhida costuma estar dormente: está viva, mas não germina. Durante o armazenamento a dormência cai, e o lote passa a germinar mais. Em Urochloa humidicola, guardar as espiguetas a 20 °C com um pouco mais de umidade fez a dormência cair mais cedo ao longo do ano, sem produto químico [7].
Para quem lê o teste, a consequência é direta: uma semente que não germinou pode estar dormente, e não morta. A germinação sozinha não separa as duas. O tetrazólio separa, porque cora o tecido vivo mesmo na semente dormente [11].
04 · Como se confere
Uma amostra a cada retirada
Acompanhar um lote guardado é repetir os mesmos testes em datas marcadas. A cada retirada sai uma amostra do armazém, que vai para o teste de germinação, nas condições das Regras para Análise de Sementes [12], e para o tetrazólio. O número de cada data se compara com o do começo.
Os dois testes juntos dizem mais do que cada um. Em sementes de Cattleya armazenadas, o grupo ligou o resultado do tetrazólio ao da germinação [2]. Para orquídea, o tetrazólio pede um pré-condicionamento em sacarose, sem o qual a viabilidade sai subestimada [9], e as sementes de tegumento grosso ou escuro pedem clareamento [10]. Para forrageiras, o método do tetrazólio está descrito espécie por espécie no livro de vigor da ABRATES [11].
Secagem, armazenamento e teste de viabilidade de sementes e pólen de orquídeas estão reunidos, passo a passo, num capítulo de protocolos do grupo [3].

05 · No SeedCounter
Cada retirada vira uma imagem
No SeedCounter
Fotografe ou digitalize cada repetição, a cada retirada, com a régua na imagem. O app conta as sementes germinadas e as que não germinaram, propõe viável e inviável no tetrazólio e deixa a decisão com quem confere. A aba Germinação junta as contagens de cada data e de cada tratamento. A imagem fica como registro: dá para abrir a sessão de novo, meses depois, e conferir a semente que gerou cada número. A exportação sai com uma linha por semente e o laudo em PDF.
Onde falha
O app conta e classifica o que está na imagem. Ele não sabe se uma semente que não germinou está dormente ou morta: isso quem diz é o tetrazólio ou o protocolo do laboratório. E se o tetrazólio da orquídea foi feito sem o pré-condicionamento, a imagem já chega com a viabilidade subestimada, e o app herda o erro.
A margem de cada laudo, que diz quanto uma diferença entre duas datas pode ser só acaso, está em A estatística do laudo. A leitura da cor do tetrazólio está em Cor e classe.
Referências
Os trabalhos por trás desta página
Quase todos são do GPEOrq e do GPSEM. A lista completa, com o que cada um mostrou, está em Trabalhos do grupo.
- Machado Neto N.B., Custódio C.C. (2005). Orchid conservation through seed banking: ins and outs. Selbyana 26(1/2), 229–235. journals.flvc.org/selbyana
- Hosomi S.T., Custódio C.C., Seaton P.T., Marks T.R., Machado Neto N.B. (2012). Improved assessment of viability and germination of Cattleya (Orchidaceae) seeds following storage. In Vitro Cellular and Developmental Biology, Plant 48(1), 127–136. doi:10.1007/s11627-011-9404-1
- Seaton P.T., Hosomi S.T., Custódio C.C., Marks T.R., Machado-Neto N.B. (2018). Orchid seed and pollen: a toolkit for long-term storage, viability assessment and conservation. Em Lee Y.-I., Yeung E.C.-T. (orgs.), Orchid Propagation: From Laboratories to Greenhouses, 71–98. Humana Press. doi:10.1007/978-1-4939-7771-0_4
- Hengling M.M., Gianeti T.M.R., Hosomi S.T., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2021). Storage of Brazilian Cattleya seeds from diverse biomes: lipid composition and effects on germination. Plant Biosystems 155(3), 487–497. doi:10.1080/11263504.2020.1762781
- Fileti J.F., Hengling M.M., Gianeti T.M.R., Pritchard H.W., Hosomi S.T., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2021). Seed longevity and cryobiotechnology in the orchid genus Cattleya. CryoLetters 42(6), 353–365.
- Francisqueti A.M., Marin R.R., Hengling M.M., Hosomi S.T., Pritchard H.W., Custódio C.C., Machado-Neto N.B. (2024). Orchid seeds are not always short lived in a conventional seed bank! Annals of Botany 133(7), 941–952. doi:10.1093/aob/mcae021
- Abrantes F.L., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2021). Seed moisture content can be used to accelerate dormancy release during after-ripening of Urochloa humidicola cv. Llanero spikelets. Ciência Rural 51(1), e20200526. doi:10.1590/0103-8478cr20200526
- Abrantes F.L., Machado-Neto N.B., Custódio C.C. (2025). Seed storage and germination of three grass species: effect of spikelet weight and dormancy. Brazilian Archives of Biology and Technology 68, e25241009. doi:10.1590/1678-4324-2025241009
- Hosomi S.T., Santos R.B., Custódio C.C., Seaton P.T., Marks T.R., Machado Neto N.B. (2011). Preconditioning Cattleya seeds to improve the efficacy of the tetrazolium test for viability. Seed Science and Technology 39(1), 178–189. doi:10.15258/sst.2011.39.1.15
- Custódio C.C., Marks T.R., Pritchard H.W., Hosomi S.T., Machado-Neto N.B. (2016). Improved tetrazolium viability testing in orchid seeds with a thick carapace (Dactylorhiza fuchsii) or dark seed coat (Vanda curvifolia). Seed Science and Technology 44(1), 177–188. doi:10.15258/sst.2016.44.1.17
- Custódio C.C., Aguiar R.P. (2020). Teste de tetrazólio em sementes de gramíneas forrageiras tropicais. Em Krzyzanowski F.C., Vieira R.D., França-Neto J.B., Marcos-Filho J. (orgs.), Vigor de sementes: conceitos e testes, 2ª ed., cap. 15. ABRATES.
- Brasil, Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2009). Regras para Análise de Sementes. Brasília: MAPA/ACS.
Cada retirada, uma imagem.
Conte germinadas e viáveis no SeedCounter e guarde a imagem junto com o número.