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Soja: da vagem à classe de cada semente

A maior lavoura de grão do Brasil começa numa vagem peluda com duas ou três sementes. O que a imagem mostra da soja, do hilo ao tamanho, com 12.687 sementes medidas.

3 de novembro de 2026 · 8 min de leitura · por Enrico S. Ambrosio

A soja é a maior lavoura de grão do Brasil. Na safra 2024/25, a Conab estimou 171,5 milhões de toneladas colhidas em 47,4 milhões de hectares. Tudo isso começa numa vagem pequena, coberta de pelos, com duas ou três sementes dentro.

A animação acima é uma simulação. A vagem amadurece, seca, abre pela costura e solta as sementes. Neste post, a gente olha a soja do jeito que uma câmera olha, da vagem ao tamanho, ao hilo e à classe de cada semente. E mede 12.687 sementes de verdade.

Da China ao cerrado

A soja (Glycine max) vem do nordeste da China, onde o cultivo tem registro entre 1100 e 841 a.C. De lá foi para a Coreia e o Japão. A enciclopédia agrícola japonesa Seikei Zusetsu, de 1804, já desenhava a planta com as vagens penduradas no caule, do mesmo jeito que elas aparecem hoje na lavoura.

Página antiga japonesa, com texto em colunas e o desenho a cores de uma planta de soja com folhas trifolioladas e vagens penduradas.Planta de soja verde com folhas largas e um cacho de vagens finas e peludas junto do caule.
À esquerda, a soja no Seikei Zusetsu, enciclopédia agrícola japonesa de 1804 (Biblioteca da Universidade de Leiden, CC BY 4.0). À direita, uma planta com as vagens verdes junto do caule (foto de Harry Rose, CC BY 2.0).

No Brasil, o primeiro registro é de 1882, com Gustavo D'Utra, na Bahia, e não deu certo. As cultivares da época vinham de clima temperado. A soja pegou no Rio Grande do Sul, com os primeiros plantios comerciais em 1924. Depois, a pesquisa brasileira criou cultivares com período juvenil longo, que florescem mais tarde quando os dias são curtos, e a lavoura subiu para o cerrado. Hoje ela é plantada em praticamente todos os estados.

Lavoura de soja verde e fechada, com uma fileira de árvores ao fundo.Imagem de satélite com um mosaico de talhões retangulares em tons de verde, marrom e rosa, cortado por um rio com mata ciliar.
À esquerda, lavoura de soja em Novo Barreiro, RS (foto de Lucas Friederich, CC BY-SA 4.0). À direita, áreas de soja no cerrado do Brasil central vistas pelo satélite sino-brasileiro CBERS-4 (INPE, CC BY-SA 2.0).

A vagem

A flor da soja é pequena, branca ou roxa conforme a cultivar, e cada flor que vinga vira uma vagem. A vagem verde é coberta de pelos, que podem ser cinza ou marrons. Quando a planta amadurece, a vagem seca, fica cor de palha e se abre pela costura, a linha onde as duas metades se juntam.

Dentro, em geral, há duas ou três sementes. Vagens com quatro existem, mas são raras. Cada semente fica presa à vagem por um cordão fino, o funículo. Quando ela se solta, sobra uma cicatriz na casca. É o hilo.

Mão segurando vagens verdes e peludas de soja, ainda presas à planta.Mão aberta sobre uma lavoura madura, com uma vagem seca aberta e sementes amarelas soltas na palma.
À esquerda, vagens verdes cobertas de pelos. À direita, uma vagem madura aberta na mão, com as sementes amarelas (fotos do United Soybean Board, CC BY 2.0).

O que dá para ver numa semente

Vista de cima, a semente de soja é quase redonda, um pouco mais comprida que larga. A casca, o tegumento, costuma ser amarela, mas existe soja de tegumento verde, marrom e preto. E tem o hilo, que muda de cor de uma cultivar para outra.

A cor do hilo é um dos descritores usados para caracterizar cultivares de soja. Ela pode ser preta, preta imperfeita, marrom, marrom-clara, cinza ou amarela. Na análise de pureza, o hilo ajuda a achar mistura de cultivares num lote. Um documento da Embrapa sobre o assunto avisa que calor e seca durante a formação da semente mudam o tom do hilo, então a cor sozinha não é prova.

Cinco sementes de soja amarelo-alaranjadas, três delas com o hilo preto à mostra, ao lado de uma moeda de 10 centavos de dólar.
Sementes de soja amarelas de hilo preto ao lado de uma moeda de 10 centavos de dólar, que tem 17,9 mm (foto de Ninjatacoshell, CC BY-SA 3.0).

Numa foto, o hilo só aparece se a semente cair de lado. Deitada sobre a face, ela esconde a cicatriz. Para ler o hilo de um lote, vale fotografar duas vezes, virando as sementes entre uma foto e outra.

12.687 sementes de verdade

Para medir tamanho, a gente usou um conjunto público da Indonésia com três variedades locais, Anjasmoro, Dega I e Grobogan (Syahraza et al., 2025, CC BY 4.0). São 119 digitalizações a 800 dpi, cada uma com uma centena de sementes em grade sobre fundo cinza. Contornamos as sementes pela cor, como o SeedCounter faz, e medimos o comprimento e a largura de cada uma.

A Anjasmoro é a menor, com 8,11 mm de comprimento médio e 6,50 mm de largura. Dega I e Grobogan ficam quase empatadas, com 8,56 e 8,51 mm. No histograma, a curva da Anjasmoro sai da frente, e as outras duas ficam uma sobre a outra. O tamanho separa uma variedade, mas não as três. Para distinguir Dega I de Grobogan, a imagem precisaria de outra pista.

A escala veio do dpi que o scanner grava no arquivo. Em scanner de mesa, esse número costuma valer, como a gente conferiu no post O DPI declara, a régua mede. A largura da digitalização também confere: 6.800 pixels a 800 dpi dão 21,6 cm, a largura da mesa de um scanner comum.

A sombra que entra na máscara

O conjunto já traz cada semente recortada, com uma máscara pronta. Comparamos as duas medidas. A máscara do conjunto inclui a meia-sombra cinza em volta da semente. Com ela, o comprimento médio sai de 8 a 9% maior que pelo contorno da cor, e a área, de 18 a 20% maior. Na Anjasmoro, são 8,82 mm contra 8,11 mm.

Duas sementes de soja ampliadas sobre fundo cinza, cada uma com um contorno ciano colado na borda e um contorno laranja mais largo, que passa pela sombra em volta.
Duas sementes com os dois contornos. Em laranja, a máscara que vem no conjunto, com a meia-sombra. Em ciano, o contorno pela cor (sementes Anjasmoro e Grobogan, Syahraza et al., 2025, CC BY 4.0, adaptado).

Quem treina um modelo com essas máscaras ensina a ele que a sombra faz parte da semente. Para contar, tanto faz. Para medir, dá cerca de 0,7 mm de diferença no comprimento. O post A luz decide o contorno mostra de onde vem essa sombra.

Não basta medir: o que é cada semente?

Contar diz quantas. Medir diz de que tamanho. A pergunta seguinte é a qualidade de cada uma. Outro conjunto público, de Lin et al. (2023), separa sementes de soja em cinco classes de qualidade. A figura reúne 23 delas, com os contornos e as classes da anotação original: 5 íntegras, 5 quebradas, 5 imaturas, 5 com tegumento danificado e 3 manchadas.

Vinte e três sementes de soja sobre fundo cinza, cada uma contornada na cor da sua classe de qualidade, com a legenda de 5 íntegras, 5 quebradas, 5 imaturas, 5 com tegumento danificado e 3 manchadas.
Sementes de soja contornadas na cor da sua classe de qualidade (Soybean Seeds, Lin et al., 2023, Mendeley Data, CC BY 4.0, adaptado).
  • A semente íntegra não tem defeito visível.
  • A quebrada perdeu um pedaço, em geral por dano mecânico na colheita ou no beneficiamento.
  • A imatura ficou esverdeada porque não completou a maturação.
  • A semente com tegumento danificado tem a casca rompida, trincada ou enrugada, e o embrião fica mais exposto.
  • A manchada tem manchas no tegumento. A causa pode ser fungo, inseto ou clima, e a imagem sozinha não diz qual.

Nas digitalizações da Indonésia também aparecem sementes com o tegumento trincado, algumas delas na animação acima.

Onde a imagem engana

Olhe a figura com calma e algumas fronteiras parecem discutíveis. Tem semente marcada como tegumento danificado que parece um pedaço. Íntegras e imaturas têm tons parecidos, e a diferença de cor depende da luz e do balanço de branco da câmera. Um cartão cinza na cena ajuda a comparar fotos.

Classe de conjunto de dados e categoria de norma também nem sempre coincidem. Na análise de pureza das Regras para Análise de Sementes, um pedaço maior que a metade da semente ainda conta como semente pura. Num conjunto de qualidade como este, o mesmo pedaço entra como quebrado.

Anotação também é proposta. Quem anotou decidiu cada fronteira, e outra pessoa poderia decidir diferente. Um modelo treinado nesses rótulos aprende essas decisões junto com as sementes, do mesmo jeito que aprende a sombra da máscara.

No SeedCounter, a classe é sua

No app, você usa viável e inviável ou define as classes do seu protocolo, e marca ou troca a classe de cada semente. Quando a máquina propõe uma classe, a proposta aparece primeiro e só vira dado depois da sua conferência. A contagem por classe sai com percentual, e cada semente mantém o número que leva de volta à imagem, junto com o comprimento e a largura. No app, fica assim.

Gravação realversão 4.0, imagem real de orquídea no tetrazólio (Sementes de Orquídeas, GPEOrq, CC BY 4.0): quem analisa marca 36 viáveis com disco ciano e 29 inviáveis com anel magenta, como no gabarito do grupo, e a viabilidade sai em 55,4%

Tem uma placa de soja fotografada ou digitalizada? Abra no SeedCounter, meça as sementes e monte as classes do seu protocolo. Para a viabilidade pelo tetrazólio, leia também Embrião vermelho respira.

Fontes

  • Conab, 12º levantamento da safra 2024/25, com 171,5 milhões de toneladas de soja em 47,4 milhões de hectares. Safras & Mercado
  • Soja: do nordeste da China ao grão dourado do Brasil, sobre a origem, o registro de 1882 e os plantios no Rio Grande do Sul. Agrolink
  • Bonato, E. R. (2003). Cor do hilo em sementes de soja. Embrapa Trigo, Documentos 38. Embrapa
  • Sementes por vagem, duas ou três na maioria, quatro ou cinco raras. Farm Progress
  • Syahraza et al. (2025), sementes de soja de três variedades da Indonésia, Mendeley Data, doi:10.17632/c733bjz4m3.3, CC BY 4.0. As 12.687 medidas estão em soja-indonesia-medidas.csv, e os scripts, em _src/real/soja/.
  • Lin et al. (2023), Soybean Seeds, Mendeley Data, doi:10.17632/v6vzvfszj6.6, CC BY 4.0.

Para a conta inteira: Quando a reta esconde uma classe, sobre classificar três ou mais classes.

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