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O DPI declara, a régua mede

Quanto vale um pixel em micrômetros? O DPI gravado no arquivo é uma declaração. A régua fotografada junto das sementes é a medida.

16 de outubro de 2026 · 5 min de leitura · por Enrico S. Ambrosio

Toda medida por imagem começa com uma pergunta. Quanto vale um pixel? Sem essa resposta, uma semente mede 80 pixels, e isso não diz nada para quem planta, armazena ou publica.

A animação acima usa uma imagem real: uma digitalização do GPEOrq, com sementes de orquídea numa lâmina e uma régua milimetrada junto, no mesmo plano. Ela vai da lâmina até a régua e da régua até o tamanho de um pixel.

A conta da régua

Na digitalização, a marca de 5 cm e a de 7 cm ficam a 3.790 pixels uma da outra. São 20 mm. A escala sai de duas divisões.

  • 3.790 px ÷ 20 mm = 189,5 px/mm.
  • 1 mm ÷ 189,5 px = 0,00528 mm por pixel, ou 5,28 µm.
  • Uma semente de orquídea com 80 px de comprimento mede 80 ÷ 189,5 ≈ 0,42 mm.

Para ter ideia do tamanho, um fio de cabelo tem de 50 a 100 µm. Nessa escala, ele ocupa de 9 a 19 pixels.

Quando a semente era a régua

Medir com uma referência conhecida é ideia antiga, e começou com sementes. Na Inglaterra medieval, um texto de por volta de 1300, a Composição de Jardas e Varas, mandava tomar três grãos de cevada secos e redondos, postos em fila, para fazer uma polegada. A numeração de sapatos no Reino Unido ainda conta assim: cada número a mais é um terço de polegada, um grão de cevada. Como no quilate da alfarroba, a régua de sementes mudava com a colheita. Por isso ela virou régua de metal.

Dois montes de grãos de cevada sobre fundo branco: à esquerda com a casca, à direita sem a casca.Lâmina de vidro de microscópio com uma escala gravada no centro e a inscrição 0,01 mm.
À esquerda, grãos de cevada, com e sem casca: três deles faziam uma polegada (foto de Sanjay Acharya, CC BY-SA 4.0). À direita, uma lâmina micrométrica, com 1 mm dividido em 100 traços de 0,01 mm (foto de Rit Rajarshi, CC BY 4.0).

No microscópio, a régua vai junto da amostra até hoje. A ocular tem uma escala gravada sem unidade. Para saber quanto vale cada traço, põe-se na platina uma lâmina micrométrica, com 1 mm dividido em 100 partes de 10 µm, e conta-se quantos traços da ocular cobrem quantos da lâmina. Cada aumento tem a sua conta. O SeedCounter faz o mesmo com a régua na foto: a escala sai da imagem, e não do equipamento.

Por que o DPI não basta

Todo arquivo de imagem pode guardar um valor de DPI, pontos por polegada. É o número que o programa escreveu ali, sem olhar a cena. Muitas câmeras gravam 72 dpi em qualquer foto, com a lente a 10 cm ou a 1 m da placa. Um recorte ou um redimensionamento muda os pixels e pode deixar o DPI antigo no arquivo.

Os 72 dpi vêm dos primeiros computadores Macintosh, em que um ponto tipográfico, 1/72 de polegada, ocupava um pixel da tela. O número virou padrão de muito programa e de muita câmera, e não tem relação com a distância até as sementes.

Nas fotos de fava que usamos nos exemplos, feitas por Ortega Polo e Larkan com uma Canon EOS M50 Mark II, o arquivo diz 72 dpi. A régua da própria foto mede 625,9 pixels por polegada. Quem confiasse no arquivo dividiria cada medida por 72, e não por 626: uma fava de 18,2 mm sairia com 15,8 cm.

Foto real de favas sobre papel azul, com a etiqueta Vf20-1-1, uma moeda e uma régua em polegadas e centímetros embaixo.A mesma régua aproximada, com um colchete laranja entre as marcas de 3 e 4 polegadas.
Foto real de fava (Ortega Polo e Larkan, 2026, CC BY 4.0). O arquivo declara 72 dpi. Entre as marcas de 3 e 4 polegadas da régua, à direita, há 626 pixels.
ImagemO arquivo dizA régua medeDiferença
Fava, Canon EOS M50 Mark II72 dpi626 px por polegada8,7 vezes
Fava, a mesma câmera mais longe72 dpi584 px por polegada8,1 vezes
Orquídea, scanner HP Scanjet G27104.800 dpi4.813 dpi0,3%

A câmera grava 72 nas duas fotos de fava, tiradas de alturas diferentes. Só a régua mostra que uma delas tem quase 7% menos pixels por milímetro.

O scanner chega mais perto. A 1.200 dpi, ele promete 47,2 px/mm. Mesmo assim, a gente trata esse valor como declaração. A régua na imagem é a medida, porque foi fotografada nas mesmas condições das sementes, na mesma altura e no mesmo arquivo.

Na digitalização da animação, o arquivo diz 4.800 dpi, e a régua dá 4.813: ali a declaração estava certa, por diferença de 0,3%. O erro aparece quando se usa o número de costume. Com 3.600 dpi, valor gravado em outras digitalizações do mesmo laboratório, cada pixel valeria 7,06 µm, e toda medida desta imagem sairia 34% maior.

Quanto pesa um pixel de erro

A borda de uma semente nunca cai exatamente entre dois pixels. Um pixel a mais ou a menos é o erro mínimo de qualquer contorno. Quanto ele pesa depende de quantos pixels a semente tem.

Numa câmera a 40 px/mm, uma semente de 2,3 mm de largura ocupa 92 px, e um pixel de erro vale 1,1% da largura. Se a mesma semente tiver só 30 px, um pixel já vale 3,3%. Por isso, numa bancada bem montada, cada semente ocupa dezenas de pixels no menor eixo.

O SeedCounter faz essa conta com você. Você marca dois pontos na régua da imagem e diz quantos milímetros há entre eles. O app calcula a escala em µm/px, e as medidas saem em milímetro, com a escala registrada. No app, fica assim.

Gravação realversão 4.0, digitalização real do GPEOrq com régua: o arraste de uma marca de centímetro à seguinte mede 1.885,5 px, e a escala fica em 5,304 µm/px

Na gravação, a marcação vai de um centímetro ao seguinte e dá 5,30 µm por pixel. Na animação do topo, com 2 cm, sai 5,28 µm. A diferença, de 0,5%, é o mesmo efeito do pixel de erro, agora na régua: quanto maior o trecho marcado, menor o peso de cada pixel. Sempre que der, marque o trecho mais longo da régua.

Uma régua de plástico custa pouco e resolve. Coloque na altura das sementes, dentro do quadro, em toda imagem. Depois marque a régua no SeedCounter e veja cada semente sair em milímetro.

Fontes

  • Barleycorn (unit), com a Composition of Yards and Perches, por volta de 1300. Wikipedia
  • Dots per inch, sobre os 72 dpi do Macintosh e o DPI como instrução de impressão. Wikipedia
  • Calibração da ocular com lâmina micrométrica. Microscope World
  • Ortega Polo e Larkan (2026). Faba Bean Seed Image Dataset for Computer Vision Based Phenotyping Studies. Zenodo, CC BY 4.0. doi.org/10.5281/zenodo.18226381

Para a conta inteira: Do pixel ao milímetro, com a incerteza da escala e um simulador de calibração.

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