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Teoria · Forma

Forma é o que sobra depois de tirar lugar, giro e tamanho.

Duas sementes podem estar em cantos diferentes da placa, viradas cada uma para um lado, uma maior que a outra, e ainda assim ter a mesma forma. Esta trilha mostra como separar a forma do resto, com sementes reais de orquídea, e quais números o SeedCounter usa para descrevê-la.

Entender · visual

Tirar o lugar, o giro e o tamanho

Numa placa, cada semente tem um lugar, uma direção e um tamanho. Nada disso é forma. Se a semente rola para o lado, se a placa gira ou se a foto é tirada mais de perto, a forma continua a mesma. Então dá para tirar as três coisas, uma de cada vez, e ver o que fica.

Dados reaisFigura 1. Na placa. viávelinviávelforma média

O centro usado é o centroide, o ponto de equilíbrio da semente. O giro deita o eixo maior da elipse de inércia, a direção em que se mede o comprimento. O tamanho sai dividindo tudo pelo comprimento. Depois das três etapas as 24 sementes viram um feixe, e o que ainda separa uma da outra é só forma: uma mais gorda, outra mais curva, outra com a ponta mais fina.

Definição

Duas figuras têm a mesma forma quando uma vira a outra por uma translação, uma rotação e uma mudança de escala. É a definição de Kendall, a base da análise estatística de forma [1][2]. O espelho fica de fora: uma semente curva e a sua imagem no espelho só têm a mesma forma se a semente for simétrica. Por isso, no alinhamento acima, as sementes giram mas nunca são espelhadas.

O tamanho em pixels engana

O conjunto de orquídea do kit tem 38 recortes de placas de tetrazólio, com 1.614 sementes contornadas no rótulo do conjunto e marcadas como viáveis (embrião vermelho) ou inviáveis. Deixando de fora as que encostam na borda do recorte, sobram 1.407: 775 viáveis e 632 inviáveis. Medindo o comprimento de cada uma em pixels, as viáveis parecem bem maiores, com mediana de 144 px contra 90 px.

50100150200250comprimento (Feret máximo), em pxfração das sementes
0,50,7511,251,51,75comprimento ÷ mediana do recortefração das sementes
Dados reaisFigura 2. À esquerda, o comprimento de cada semente em pixels (o maior diâmetro de Feret). À direita, o mesmo comprimento dividido pela mediana do recorte de onde a semente veio. Áreas normalizadas; as linhas pontilhadas marcam as medianas. viáveis (775)inviáveis (632)

Só que os recortes não estão na mesma escala. A mediana do comprimento por recorte vai de 69 a 189 px, e as classes não se espalham por igual entre eles: há recortes quase só de inviáveis, com sementes pequenas na imagem. Sem régua na foto não dá para saber quanto disso é semente maior e quanto é ampliação diferente. Dividindo cada comprimento pela mediana do seu recorte, a diferença quase some (gráfico da direita). Nos 16 recortes com pelo menos cinco sementes de cada classe, a viável sai, na mediana, só 5% mais comprida que a inviável do mesmo recorte.

O que fica

Pixel mede a semente e o zoom ao mesmo tempo. Para comparar tamanho é preciso escala, a régua na foto (veja do pixel ao milímetro). Para comparar forma, não: um descritor de forma é uma razão entre medidas da mesma semente, não tem unidade, e o zoom se cancela na conta.

A forma média de cada classe

Com lugar, giro e tamanho fora, dá para sobrepor as sementes e tirar a média. Cada contorno alinhado vira uma máscara, as máscaras se somam, e a curva onde metade das sementes cobre o ponto é a forma média. É a mesma ideia da semente média e do espaço de forma das 145 silhuetas em Aprender, agora com as orquídeas separadas por classe.

inviáveis · n = 632 · C/L 3,8
viáveis · n = 775 · C/L 4,2
as duas, sobrepostas
Dados reaisFigura 3. Contornos alinhados pelo eixo maior e com o mesmo comprimento (70 de cada classe, sorteados, em traço fino). A linha grossa é onde 50% das sementes cobrem o ponto; as finas, 25% (a de fora) e 75% (a de dentro). C/L é o comprimento sobre a largura da forma média.

A viável média é um pouco mais alongada que a inviável: comprimento sobre largura de 4,2 contra 3,8. A diferença existe, mas é pequena perto da variação dentro de cada classe, que as curvas de 25% e 75% mostram. A forma sozinha não decide a viabilidade. O tetrazólio existe justamente porque a decisão está na cor do embrião, e não no contorno.

Onde falha

Os polígonos do rótulo são grosseiros. Metade deles tem 11 vértices ou menos, e 83% têm entre 5 e 20. Um contorno assim corta as pontas e alisa as curvas. Serve para a forma em escala de grão, como alongamento e curvatura, e não serve para detalhe fino de borda nem para perímetro. A conta de quanto isso pesa em cada descritor está em Descritores de forma.

Três números para a forma

Uma forma inteira não cabe numa coluna de planilha. Um descritor de forma resume o contorno num número que não muda com lugar, giro nem tamanho. Três deles bastam para começar, e cada um enxerga uma coisa diferente.

O alongamento é o comprimento dividido pela largura. Aqui ele sai do paquímetro que gira em volta da semente, os diâmetros de Feret: a maior abertura sobre a menor. Vale 1 no círculo e fica perto de 4 na semente de orquídea.

A circularidade compara a área com o perímetro, \(4\pi A/P^2\). Vale 1 no círculo e em nenhuma outra figura, e cai quando a forma alonga ou quando a borda fica recortada. Uma elipse com o dobro do comprimento na largura dá cerca de 0,84.

A solidez é a área da semente dividida pela área do seu fecho convexo, o elástico esticado em volta dela: \(A/A_{\text{fecho}}\). Vale 1 na semente sem reentrância e cai quando a semente é curva, quando tem um entalhe ou quando duas sementes encostadas viram um objeto só.

Instrumento · recortes reais em fila

–menor
–mediana
–maior

Cada recorte foi girado até o eixo maior ficar deitado e ampliado até o comprimento ocupar a mesma fração da célula, e a imagem fora do contorno foi escurecida. O número sai do polígono do rótulo, desenhado por cima (contínuo nas viáveis, tracejado nas inviáveis). Com a solidez escolhida, a linha laranja tracejada é o fecho convexo: o que fica entre ela e o contorno é o que falta para a semente ser convexa. Repare que algumas solidezes baixas vêm de uma ponta torta do rótulo, e não da semente.

Vale olhar a fila pelos três descritores. Alongamento e circularidade andam juntos, porque semente comprida tem perímetro grande para a área que cobre. A solidez anda por outro caminho: uma semente pode ser curta e pouco sólida (curva como uma vírgula) ou comprida e totalmente sólida (reta como um fuso). Por isso nenhum dos três substitui os outros.

Dados

Conjunto "Sementes de Orquídeas" v8, Roboflow Universe (universe.roboflow.com/sementes-de-orqudea/sementes-de-orquideas), licença CC BY 4.0. Recortes de 946 × 946 px, sem escala em milímetro; partição de validação, 38 imagens. Figuras e números refeitos pelo script _src/figuras/teoria-forma.py do site.

No SeedCounter

No SeedCounter

Toda semente contornada no app, pelo clique, pela IA opcional ou à mão, ganha área, perímetro, circularidade, comprimento e largura pelos eixos principais e os diâmetros de Feret máximo e mínimo. Com a escala da régua, área e comprimentos saem em mm² e mm. Razões como o alongamento e a circularidade não têm unidade e valem mesmo sem régua, desde que as imagens comparadas tenham a mesma resolução. O contorno que o app guarda tem até 48 lados, e isso pesa na circularidade das sementes pouco sólidas; a conta está em Onde falha. No hub de datasets, a vista Forma alinha os contornos de um conjunto inteiro e mostra a semente média de cada classe, e o Mosaico põe as sementes em fila pela medida escolhida.

Vista Mosaico do hub de datasets do SeedCounter 4.0: sementes de soja recortadas em fila, do menor para o maior comprimento, cada uma com o valor embaixo e um marcador da cultivar no canto.
No app. O Mosaico do hub: 120 sementes de soja em fila pelo comprimento, com a cultivar no canto de cada célula. É o lugar de conferir as sementes das pontas.

Para aprofundar

Para ver em movimento: o paquímetro que gira em volta da semente, a semente desenhada por círculos e o post Uma semente é uma soma de círculos, com o vídeo.

Para ler mais

  1. Kendall D. G. (1984). Shape manifolds, Procrustean metrics, and complex projective spaces. Bulletin of the London Mathematical Society 16(2), 81–121. doi:10.1112/blms/16.2.81
  2. Dryden I. L., Mardia K. V. (2016). Statistical Shape Analysis, with Applications in R. 2ª ed. Wiley.
  3. Tanabata T., Shibaya T., Hori K., Ebana K., Yano M. (2012). SmartGrain: high-throughput phenotyping software for measuring seed shape through image analysis. Plant Physiology 160(4), 1871–1880. doi:10.1104/pp.112.205120
  4. Koklu M., Ozkan I. A. (2020). Multiclass classification of dry beans using computer vision and machine learning techniques. Computers and Electronics in Agriculture 174, 105507. doi:10.1016/j.compag.2020.105507

Os programas de fenotipagem de grão medem estes mesmos números: o SmartGrain mede comprimento, largura, área, perímetro e circularidade [3], e o conjunto de feijão de Koklu e Ozkan tem 16 descritores de dimensão e forma para 13.611 grãos [4].

A forma das suas sementes, semente por semente.

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